23 de fev. de 2010

José Dirceu, o lobista de ouro da banda larga

BRASIL
José Dirceu, o lobista de ouro da banda larga
O ex-ministro da Casa Civil, o conhecido chefe de uma sofisticada organização criminosa, está envolvido na trama da surpreendente banda larga do governo Lula, que fez as ações da Telebras subirem magicamente 35.000%, como lobista de uma empresa chamada “Star Overseas Ventures”, que tem sede nas suspeitíssimas Ilhas Virgens Britânicas.

Foto: Elza Fiuza/Abr com alteração de Toinho de Passira

LOBISTA RI À TOA: Justiça seja feita, não acontece nenhuma grande tramóia nesse país, nos últimos sete anos, sem que o ex-ministro José Dirceu não tenha contribuído com a sua experiência

Fontes: Folha de São Paulo, Paradise Islands

A Folha de São Paulo flagrou o ex-ministro José Dirceu recebendo pelo menos R$ 620 mil do principal grupo empresarial privado que será beneficiado caso a Telebrás seja reativada, como promete o governo.

O dono da Star Overseas Venture, Nelson dos Santos, foi quem pagou a grana ao ex-ministro e já disse que não foi para fazer lobby, mas, não disse e não está obrigado, por enquanto, a dizer, para que foi.

O que tanto sabe José Dirceu para que uma empresa lhe pague tanto dinheiro por “serviços” prestados? A experiência empresarial de Dirceu foi de ter ajudado a sua ex-mulher a administrar um modesto bazar em Cruzeiro do Oeste, no interior do Paraná, quando estava na clandestinidade, daí a assessorar uma empresa nas Ilhas Virgens Britânicas...

Tanto a trajetória da Star Overseas quanto a decisão de Santos de contratar Dirceu, deputado cassado e réu no processo que investiga o mensalão, expõem a atuação de uma rede de interesses privados junto ao governo paralelamente ao discurso oficial do fortalecimento estatal do setor.

Em 2005, a "offshore" de Santos comprou, por R$ 1, participação em uma empresa brasileira praticamente falida chamada Eletronet. Com a reativação da Telebrás, Santos poderá sair do negócio com cerca de R$ 200 milhões, segundo a Folha de São Paulo.

Constituída como estatal, no início da decada de 90, a Eletronet ganhou sócio privado em março de 1999, quando 51% de seu capital passou para a americana AES. Os 49% restantes ficaram nas mãos do governo. Em 2003, a Eletronet pediu autofalência porque seu modelo de negócio não resistiu à competição das teles privatizadas.

Resultado: o valor de seu principal ativo, uma rede de 16 mil quilômetros de cabos de fibra óptica interligando 18 Estados, não cobria as dívidas, estimadas em R$ 800 milhões.

Diante da falência, a AES vendeu sua participação para uma empresa canadense, a Contem Canada, que, por sua vez, revendeu metade desse ativo para Nelson dos Santos, da Star Overseas, transformando-o em sócio do Estado dentro da empresa falida.

Foto: Divulgação

Vista de Road Town, localizada na ilha de Tortola, a capital das Ilhas Virgens Britânicas, área de influência de José Dirceu

A princípio, o negócio de Santos não fez sentido aos integrantes do setor. Afinal, ele pagou R$ 1 para supostamente assumir, ao lado do Estado, R$ 800 milhões em dívidas.

Em novembro de 2007, oito meses depois da contratação de Dirceu por Santos, o governo passou a fazer anúncios e a tomar decisões que transformaram a sucata falimentar da Eletronet em ouro. Isso porque, pelo plano do governo, a reativação da Telebrás deverá ser feita justamente por meio da estrutura de fibras ópticas da Eletronet.

Outro ponto que espanta os observadores desse processo é que o governo decidiu arcar sozinho, sem nenhuma contrapartida de Santos, com a caução judicial necessária para resgatar a rede de fibras ópticas, hoje em poder dos credores.

Até o momento, Santos entrou com R$ 1 na companhia e pretende sair dela com a parte boa, sem as dívidas. Advogados envolvidos nesse processo estimam que, com a recuperação da Telebrás, ele ganhe cerca de R$ 200 milhões.

Um sinal disso aparece no blog de José Dirceu: "Do ponto de vista econômico, faz sentido o governo defender a reincorporação, pela Eletrobrás, dos ativos da Eletronet, uma rede de 16 mil quilômetros de fibras ópticas, "joint venture" entre a norte-americana AES e a Lightpar, uma associação de empresas elétricas da Eletrobrás".

O ex-ministro não mencionou o nome de seu cliente nem sua ligação comercial com o caso. O primeiro post de Dirceu no blog se deu no mês de sua contratação por Santos, março de 2007. O texto mais recente do ex-ministro sobre o assunto saiu no jornal "Brasil Econômico", do qual é colunista, em 4 de fevereiro passado.

O presidente Lula manifestou-se publicamente sobre o caso em discurso no Rio de Janeiro, em julho de 2009: "Nós estamos brigando há cinco anos para tomar conta da Eletronet, que é uma empresa pública que foi privatizada, que faliu, e que estamos querendo pegar de volta", disse na ocasião.

Lula não mencionou que, para isso, terá de entrar em acordo com as sócias privadas da Eletronet, entre elas a Star Overseas, de Nelson dos Santos, que contratou os serviços de Dirceu.

Enquanto o governo não define de que forma a Eletronet será utilizada pela Telebrás, a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) conduz uma investigação para apurar se investidores tiveram acesso a informações privilegiadas.

Entre 31 de dezembro de 2002 e 8 de fevereiro de 2010, as ações da Telebrás foram as que mais subiram, 35.000%, contando juros e dividendos, segundo a consultoria Economática.

Estranhamos não ter sido encontrada ainda a participação de Lulinha, um dos gênios das telecomunicações, em tão lucrativo negócio.

Algo nos diz, que talvez Dirceu seja mais que um simples assessor nessa tramóia. Afinal o nome da empresa é “Star Overseas Venture”, que pode ser traduzido romanticamente como uma ”Estrela se aventurando para além mar”. Será que essa estrela aventureira seja aquela mesma que é símbolo de um partido?


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